terça-feira, 28 de julho de 2026

O Fio Cortado: Como alguns sindicatos venderam o Labirinto ao Minotauro

 


 Teseu e Ariadne, vencer o Minotauro no labirinto (autor desconhecido/representação)

A função histórica do sindicalismo nunca foi a celebração da rendição nem a burocratização da derrota. Quando os trabalhadores delegam a sua voz numa estrutura representativa, não o fazem para adquirir um corretor de concessões, mas para erguer uma barreira contra a assimetria do poder económico. O recentíssimo acordo aprovado por dois sindicatos não é um compromisso pragmático — é uma capitulação aberta que penaliza gravemente os TSDT/ESDT.

O sindicato deveria comportar-se como o fio de Ariadne. Na mitologia, o fio concedido por Ariadne a Teseu não servia apenas como ornamento; era a ferramenta rigorosa, contínua e inegociável que permitia orientar o herói na obscuridade do Labirinto de Creta, garantindo que não seria devorado pelo Minotauro nem se perderia nas suas entranhas. O sindicato tinha o dever de ser essa linha de aprumo e salvação: a bússola que conduz os trabalhadores através das complexidades e pressões do mercado laboral, protegendo-os das armadilhas do retrocesso e da erosão de direitos e autonomias.

Em vez de manter o fio esticado e firme, sindicatos optaram por cortá-lo em pleno percurso, abandonando os trabalhadores ao arbítrio das forças que deveria combater. A aprovação deste acordo, representativo de perdas reais — sejam salariais, de equidade ou de condições de trabalho —, revela uma profunda miopia política e uma falência ética. Sob o eufemismo técnico de PR e NR, o que se consumou foi a aceitação passiva dos ditames do Governo.

Não há erudição nem retórica que consiga disfarçar o facto central: uma representação que assina a degradação da vida daqueles que representa perdeu a sua razão de ser. Quando o fio de Ariadne se rompe por cobardia ou complacência de quem o segura, a estrutura deixa de ser um farol emancipatório e converte-se num mero entreposto de gestão da resignação.

As lutas laborais não se travam com capitulações de gabinete. O sindicalismo perde toda a razão de ser quando se transforma num carimbo do recuo social. Cabe agora aos trabalhadores desmascarar os falsos representantes, tomar a iniciativa e pedir contas a quem negociou e vendeu os seus direitos.

É , outra vez, hora de muita luta

Maria Rocha

quarta-feira, 13 de maio de 2026

A fábrica IA normatiza a língua ou a ditadura do “default"

 




Reflexão de uma revisora de 2 revistas científicas, e que nem sempre consegue interpretar os textos.

O expert da língua portuguesa e até os próprios estados dos diferentes países onde se fala português estão a ser substituídos por algoritmos, plataformas digitais e modelos de Inteligência Artificial. A IA a decidir por nós.

Uma mudança técnica, mas também, política e identitária, uma vez que as escolhas de interface (os "defaults") moldam a perceção de qual variante da língua é considerada "normal" ou "rentável".

Grande parte das aplicações oferecem apenas o "Português (Brasil)", omitindo variantes de Portugal, Angola ou Moçambique. Esta exclusão não é um mero detalhe de design, mas uma decisão económica: a máquina privilegia o que tem mais dados, mercado e facilidade de processamento. Assim, o português digital torna-se uma "língua de máquina" — polida e funcional, mas alérgica à diversidade regional, sotaques e gírias.

Qual o peso dos big data e o ciclo de retroalimentação

A IA aprende com o conjunto de textos. Se os dados forem predominantemente urbanos e institucionais (seja do Brasil ou de Portugal), a máquina tratará as formas periféricas, africanas ou orais como ruído.

Ainda, estudos indicam que humanos estão a adotar o vocabulário previsível da IA, além disso, as discussões acaloradas nas redes sociais sobre o "ouro" ou erros gramaticais servem apenas para gerar dados e lucro para as plataformas, sem proteger a língua.

Resistindo e as considerações finais

A língua portuguesa é pluricêntrica e não tem um dono único, e teremos de combater a colonização algorítmica:

·         Rejeitar correções automáticas que anulem a identidade regional;

·         Exigir a inclusão de todas as variantes em aplicações e IAs;

·         Apoiar a criação de recursos digitais fora do eixo dominante.

Em suma, aceitar passivamente o português que a máquina devolve não é apenas uma questão de rapidez, mas uma forma de ensinar ao sistema que a nossa própria forma de falar tem menos valor.

 


sábado, 13 de janeiro de 2024

O uso da bata branca e a aceitação da ciência.

 







(A Clínica Gross" foi pintada pelo americano Thomas Eakins em 1875, pouco antes da adoção de um ambiente cirúrgico higiénico, e é por isso que é frequentemente contrastada com a pintura posterior de Eakins, "A Clínica Agnew" (1889), representa uma sala de operações mais limpa, com participantes de batas brancas, em linha com o que a ciência ia publicando )



 

 

Não será novidade para ninguém que até ao seculo XV, XVI a ciência não existia. Não, enquanto entidade apoiada na experiência e observação, não, enquanto entidade apoiada no método científico.

 

As disciplinas da área da medicina foram as últimas a abandonar uma série de crenças, aqui crença como uma entidade não científica. Queremos dizer com isto, que a medicina foi o último reduto a render-se a Karl Popper e ao método científico. Levou décadas até a medicina fazer uma separação rigorosa entre as crenças, a religião e, a ciência, a doença e as suas origens e tratamentos, etc.

 

Não vamos aqui recuar a  Leviantã, a Thomas Hobbes, na desconstrução de Bruno Latour e Callon fizeram desta obra. Nem vamos passear por Popper, que bastava para justificar porque qualquer profissional de saúde, credenciado, não deve prescindir do uso do branco.

 

Ficamos apenas com duas obras, duas pinturas que distam entre si 14 anos, ambas do século XIX, e que de forma quase intuitiva nos fazem entender o branco como símbolo de luz, de saber, de conhecimento, de ciência.

 

As pinturas acima, a primeira de 1875 (ainda a medicina resistia ao método cientifico) sem bata, a segunda de 1889, já acreditando que a evolução passava pela experimentação e observação, o uso da bata branca absolutamente institucionalizado.

 

O branco num profissional de saúde significa LUZ, SABER, CONHECIMENTO, CIÊNCIA.

 

Colocar outra qualquer cor em médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, farmacêuticos, sobretudo para os fazerem distinguir-se uns dos outros, não é mais do que um sistema de classificação que valoriza estigmas que durante anos combatemos.  A ignorância é atrevida, a ignorância sobre certas simbologias permite que alguns “doutos” dirigentes tomem decisões tontas, até bizarras, e que pode deitar por terras anos de luta. Queremos estar sempre associados à melhor e última evidência científica, que a ciência nos pode oferecer, e os símbolos são importantes por isso.




 

Ainda hoje grandes escolas de medicina e enfermagem comemoram, por esse mundo fora,  a cerimónia do USO DA BATA BRANCA, que acontece quando um aluno já tem conhecimentos suficientes para usar este símbolo de saber.

 

Não nos tirem isto, não descartem símbolos porque não sabem o peso que eles têm na história da ciência




CONSULTADO:

Desparafusando o grande Leviatã (Callon e Latour 1981) – LaSPA

Delicado, A. Microscópios, batas brancas e tubos de ensaio: Representações da ciência nas exposições científicas

Microscopes, White Gowns and Test Tubes: Representations of Science in Scientific Exhibitions

 

Ribeiro, F.; Siva, S. ; 2023.Ciência de bata branca? Luzes e sombras nas representações dos cientistas

sábado, 5 de junho de 2021

Inteligência Artificial. As implicações no dia-a-dia dos Técnicos de Radiologia

 



WEBINAR: Inteligência Artificial. As implicações no dia-a-dia dos Técnicos de Radiologia Dia 18 de junho 2021, das 15h.00 às 16h.30

Sinopse:

A evolução da tecnologia, a disponibilização massiva de grande volume de dados e o progresso da medicina baseada na evidência tem contribuído para o crescimento da utilização da Inteligência Artificial (AI) em saúde.

Assistimos a uma emergente aplicabilidade da AI e “machine learning” em diferentes especialidades e áreas clínicas, e a Radiologia tem liderado este desenvolvimento através de algoritmos utilizados desde:

aquisição de imagem
deteção de patologia
sistemas de referenciação
reconhecimento de voz
otimização de “workflows

A sessão de “Inteligência Artificial. As implicações no dia-a-dia dos TR” tem como objetivo promover a discussão e partilha sobre conceitos básicos de AI, soluções e plataformas atualmente disponíveis, considerações éticas e profissionais no diagnóstico e prestação de cuidados. Também sobre o papel da Radiologia e do TR no caminho que só agora começamos a trilhar e que tem implícitas novas oportunidades e desafios.

Trata-se de uma sessão aberta a todos os interessados, técnicos de radiologia ou outros profissionais de saúde, independentemente da área. Disponível em

https://bit.ly/34NqxbO

Certificado de participação emitido pelo Serviço de Formação dos CHUC,E.P.E., depois de indicação do serviço de informática (STSI)

A comissão organizadora do Serviço de Imagem Médica. CHUC, E.P.E.

            Alda Pinto
            Carla Solano

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Parabéns Leonardo. A busca do Homem Universal





Algures o homem moderno separou a Ciência da Arte. Algures numa rtabela classificatória qualquer redefine-se objetividade e subjetividade e invennta-se uma barreira que um dia desmoronará.


Ciência e Arte comungam desde sempre interesses pela representação anatómica do corpo humano. Os cientistas trabalham na tentativa de desvendar os mistérios entre vida , corpo e doença (morte); os artistas perseguiram a proporção, a beleza e o ponto exato que permite aproximar os Homens dos Deuses/Natureza[??] 


Da anatomia pré-renascentista à cultura visual do Renascimento e à representação visual das ilustrações anatómicas procurou-se fundamentar racionalmente a beleza em linha com as retóricas de cada época.

É no século I a.C. que o arquiteto romano, Vitruvio, estudou um modelo de HOMEM , um modelo teórico em que tentou articular O CORPO com a Arquitetura, Matemática e a Geometria. Depois de muitas tentativas abandona a ideia

Da Vinci (1452-1519) em 1487 , apoiado nas teorias de Vitruvio, faz o seu HOMEM VITRUVIANO e compagina num só movimento corporal e numa única imagem , os dois esquemas que o arquiteto tinha esquematizado separadamente – o corpo no circulo e o corpo no quadrado – e resolve o conflito do corpo com a geometria, da arquitetura com o movimento, da arte com a ciência.

O “Homem Vitruviano” é fonte de inspiração de artistas da Idade Média e do Renascimento. O Renascimento regressa ao ideal clássico da “mimesis”, mas adopta modelos de representação universal muito rigorosos e complexo cuja vitalidade estava longe das representações medievais.







James Elkins (1995) Art History and Images That Are Not Art, The Art Bulletin, 77:4, 553-571, DOI: 10.1080/00043079.1995.10786656

quarta-feira, 24 de março de 2021

Röntgen e a Tuberculose

 


“3. Os Raios X, 1895. “Encha o peito de ar. Pode respirar!” Uma ilustração visual do bacillus 

A necessidade de confirmação do diagnóstico de Tuberculose por “meios mecânicos”, no princípio de século XX, dava maior objetividade à doença, suportada até antão na subjetividade de uma insípida clínica. Leia-se: 


                  A primeira coisa que vai fazer, Castorp, é meter-se dentro dos lençóis, para vermos se umas  semanas de cama chegam para lhe retirar a ressaca. Tudo o resto vem depois. Tiraremos uma linda fotografia às suas entranhas - decerto que irá apreciar esta perspetiva do seu interior.    

 Thomas Mann, Cap IV, O Termómetro, in A Montanha Mágica, 1924:210

 

Anteriormente à descoberta dos Raios X “(...) a medicina dependia primeiramente dos sentidos (visão tato e audição) a fim de se imaginar o interior do corpo. Ainda nos nossos dias, a “perceção direta das sensações e o seu significado é ainda importante para os clínicos, mesmo que eles dependam cada vez mais dos meios mecânicos de visão” (Reiser,1996 in Dijck, 2005:3- 4). Porém, este raios trazem consigo associados a ideia de ver a morte, mesmo a mulher de Röentgen, quando olhou para a radiografia da sua mão terá ficado assustada “(...) com a imagem fantasmagórica dos ossos de sua mão, com uma desagradável sensação de morte e pediu para nunca mais participar dessas experiências” (Carvalho, 2006:212). O que está em cima da mesa é a visualização da morte associada ao esqueleto. 

O século XIX está cheio de metáforas associadas à Tuberculose: quando sofrer de TB trazia uma áurea de refinamento; quando a TB era própria de uma sensibilidade romântica, difundida entre intelectuais e artistas (Porto, 2007); quando a doença surge, para os poetas, como algo que os torna interessantes; quando jovem que aspirasse a carreira de literato deveria “ostentar um pouco de magreza, cor pálida e tosse, como complemento aos dotes intelectuais que sente borbulhar dentro de si” (Montenegro 1997; Porto 2007); ou ainda no dizer do poeta romântico brasileiro Casimiro Abreu: 

                  “Eu desejo uma doença grave, perigosa, longa mesma (sic), pois já me cansa essa monotonia de  saúde. Mas queria a tísica com todas as suas peripécias, queria ir definhando liricamente,   soltando sempre os últimos cantos da vida e depois expirar no meio de perfumes debaixo do céu  azulado da Itália [...]” 

Montenegro, 1997 in Porto, 2007. 


O que Röentgen nos oferece, são uns Raios usados: 


            “como uma técnica de imagem, que se presta a todo o tipo de significados e      interpretações públicas gerando respostas públicas fantasiosas, que poderemos dizer tratar-se na altura de uma “X-Ray–mania” 

(Cartwright,  1995:107).

 

Lembremos que os primeiros a obterem estas imagens, depois dos cientistas/físicos na época eram os fotógrafos, por serem os únicos que tinham instrumentos para revelação e tratamento destas imagens, dando azo a algum mercantilismo associado à novidade e deixando à imaginação dos comerciantes todo o tipo de produtos com a chancela X-Ray. 

                  “Imagens de RaiosX que funcionaram, e continuam a funcionar, como ícones, fetiches e   artefactos de saúde, sexualidade, vida e morte, de forma muito significativa. O Raio X é uma  descoberta abrangente e de alguma perversão cultural, que confunde as distinções entre público e o conhecimento, entre especialidade privada e a fantasia popular, entre o discurso  científico, arte e cultura popular. Considerada uma técnica que tanto destrói como salva vidas. Como modo de conhecimento científico, tem revelado mais sobre o corpo moderno do que qualquer outra modalidade de imagem” 

(Cartwright, 1995:107-108). 

Esta transparência, agora mediada pela medicina, quase se torna uma construção social, por um lado o corpo torna-se transparente, por outro o seu interior tecnológico torna-se mais complexo porque exige saberes novos (Dijck,2005). Quanto mais vemos, mais complexa vai sendo a informação colhida, no entanto é sedutor aquele corpo que pode ser um veículo artístico. Este corpo, podemos dizer, novo, torna-se um objeto também cultural (Dijck, 2005). E a Medicina, por um lado, precisa desta objetividade mecânica e o doente, por outro, necessita desta confirmação objetivada pelos meios de visão mecânicos. Vejamos, Castorp, que para aceitar na totalidade a sua Tuberculose nos diz: 


                  Isso é verdade, não se pode ter a certeza de nada – concordou Hans Castorp. Mas por essa razão é que não devemos pensar o pior, por exemplo, no que toca à minha convalescença. [...]Também faltam ainda as radiografias e a radioscopia, que lançaram alguma objetividade sobre o  diagnóstico, e quem sabe se algo de importante não vem ainda à luz e se a febre não desaparece mais depressa do que se espera e vos digo adeus a todos. 

Thomas Mann, Cap V, Sopa da eternidade e súbita clareza, 

in A Montanha Mágica, 1924:214


A introdução dos raios de Röentgen nos procedimentos médicos e na avaliação do diagnóstico de TB é, apesar das metáforas, uma realidade evolutiva. Ainda hoje uma simples radiografia ao tórax é exame de primeira linha. A Tuberculose precisava, agora, de novos saberes para a interpretação deste registo e é desta forma que nos primeiros anos do sec. XX aparecem os primeiros estudos de anatomia radiológica. A partir daqui, e da primeira proposta de classificação de tuberculose de acordo com os achados radiológicos (Bombarda, 2001) a Tuberculose fica prisioneira definitivamente destes registos. Estes achados, ainda hoje são atuais e são as mesmas, as formas imagiológicas de manifestação de uma TB ativa. Quando surge a I Grande Guerra e a Tuberculose Bacilar dissemina-se por toda a Europa, tornando-se necessárias medidas acrescidas de controlo da doença, sendo uma destas medidas a realização de uma radiografia através do Raio X (Bombarda, 2001). Ainda hoje um efetivo rastreio e controlo de TB deve ter como exame de ponta também uma radiografia ao Tórax.” 

in Solano, C. 
Tuberculose: antes e depois de Roentgen. Entre metáforas e a objetividade mecânica. Revista Matria, nº7. 2018:517-520.  

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

A palavra SUPERIOR é muito importante

\





Refiro-me à inclusão do vocábulo superior na carreira dos  TÉCNICOS DE DIAGNÓSTICO E TERAPÊUTICA. 
Quem defende que a mudança de designações é um disparate, uma patetice de alguns vaidosos que só querem ser superiores não percebe que não é só uma designação, não é só a introdução de uma palavra, trata-se de renomear e trata-se da transformação das coisas.

Um exemplo que gosto de dar, sobretudo às pessoas mais antigas na profissão, foi a grande mudança que aconteceu com a passagem do uso da palvra "radiologia" para "imagiologia", na designação de alguns serviços. Assisti, ainda nos anos 80 do século XX a esta discussão e desda aí, os vocábulos certos nos sitios certos tornaram-se importantes na minha percepção da relevância da linguagem, que desenvolvi, posteriormente,  por relacionamentos familiares, bem como, nalguns dos anos que trabalhei em marketing comunicacional, que me mostrou o mundo impregnado de conceitos de"global" e "local"(1), do conceito de territorialidade tão importante quando pensamos os limites profissionais, etc

Este exemplo, a mudança entre radiologia/imagiologia mostra que as entidades a que se reduzia uma área disciplinar foram ampliadas e legitimaram a absorção de saberes que começavam a surgir e que poderiam ser absorvidos por áreas disiciplinares mais fortes, como a biologia e bioquímica. Uma visão estratégicas que se não fosse antecipada é provável que a radiologia não fosse o que hoje é. Refiro-me à ecografia e à Ressonãncia Mágnetica e a alguns dos desenvolvimentos disciplinares. Este caminho aumentou a possibilidade de expansão dos antigos técnicos de radiologia e dos médicos radiologistas, mas também aumentou a subjetividade  técnico-cientifica da disciplina/saber.

A designação nova, imagiologia, acabou por validar o processo, mas também o alimentou e resultou que o conhecimento produzido é neste momento "outro",  mais amplo, próximo de alguma intersubjetividade (porque os mundos referênciais e as posições continuam a ser diferentes, entre profissionais de saúde e biólogos ou bioquímicos) por comparação com aquele que era (ou é...) produzido.

Este exemplo mostra bem o quanto um palavra a mais ou a sua alteração podem mudar o curso da história. (Em nada isto contradiz com os debates que correm sobre os serviços voltarem  a utilizar o vocábulo "radiologia", debates que têm outras razões subjacentes e que se tornam legitimos neste momento)

Não podemos deixar-nos levar só pela lutas que pertencem aos sindicatos, melhores salários, maior reconhecimento ( que são muito importantes e nos dão alento se foram vencedoras), temos de parar e repensar o futuro, e incluir todos, pensar com todos. Constituirmos grupos de trabalho sérios e pensar não em cima de decretos leis, nem em cima de opiniões mal amanhadas por desconhecimeto absoluto do que é história menos ainda de como a interpretar.
Precisamos urgentemente de quem de nós apostou nas ciências sociais, nas área da filosofia e da epistemologia, para crescemos com os pés no chão

Precisamos de grupos de trabalho para pensar, e para isso estou disponível

CS
técnica de radiologia
Licenciada em radiologia
Mestre em Antropologia Médica
Pós graduada em estudos contemporâneos (vertente ciência e saúde)




(1) veja-se 

Beck, Ulrich. O que é globalização? Equívocos do Globalismo Respostas à Globalização. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

Giddens, Anthony. O mundo na era da globalização. Lisboa: Presença, 2000.

Weaver, C., J., (2003). History, Modernization and Globality: Preliminary Thoughts, Institute on Globalization and the Human Condition, ttp://www.sociology.mcmaster.ca/institute-on-globalization-and-the-human-condition/documents/IGHC-WPS_03-5_Weaver.pdf



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Filosofia da imagem




Cada imagem é uma imagem do corpo. 

Cada radiografia é uma representação do corpo. 

Dizer isso é dizer que vemos corpos, mesmo onde não há nenhum, ou tão só um plano axial, coronal ou sagital. 

A criação de planos e sequências é, até certo ponto, a criação de um corpo



domingo, 27 de dezembro de 2020

DESEJOS PARA 2021


                    

Desenho: Mão com Esfera, de M. C. Escher (1935)   


Começar a pensar ciência, começar a entender e treinar as perguntas em diferentes áreas disciplinares. Pensar a ciência em rede e quem melhor que 18 profissões unidas para criar linhas de fuga?

Não é possível pensar sem alicerces, não existem áreas disciplinares sem suporte ou porque amo a filosofia …

«A matemática não faz parte do mundo físico; faz parte da nossa representação da realidade. É um facto epistemicamente e ontologicamente objetivo que tenho cinco dedos nesta mão e cinco dedos nesta outra. Mas então surge a questão, o que é o cinco? Todos sabemos o que é um dedo, mas o que é o cinco? Amo a filosofia porque só em filosofia se permite que façamos perguntas como esta."

John R. Searle, ‘Da Realidade Física à Realidade Humana" 
Gradiva, Lisboa, 2020, pág. 44.

Não é possivel pensar sem filosofia, antropologia e história. Não vamos crescer sem perceber porque existimos.

Efemérides em Radiologia

A segunda Naked Truth (1899), Advertisement by R. V. Wagner & Sons em que máquinas estáticas demonstram o desaparecimento da privacidade com o corpo feminino.

retirada de Naked Truth (1899), Advertisement by R. V. Wagner & Sons em que máquinas estáticas demonstram  o desaparecimento da privacidade com o corpo feminino. 










Existe um fascinio popular pelos raios X, ou como a "nova" linguagem exige, sobre a radiação X, desde a sua descoberta por Wilhelm Conrad Röntgen. E este fascínio não mostra sinais de abrandamento. Muito do material que é de interesse para o historiador da radiologia é transitório. O termo "efémera" abrange uma grande variedade de material, incluindo folhetos, cartões comerciais e bilhetes. Tudo, enfim.


retirada de Rezende, 2009


Quando o conhecimento sobre historiografia é diminuto o lixo é o caminho de muito material valioso para o historiador e antropólogo.

Se leres isto e trabalhares com qualquer área das tecnologias de saúde, por favor, não deites fora nada. Fala connosco


domingo, 8 de novembro de 2020

X-Strahlen,125 anos depois

 

Röentgen (...)guardou segredo dizendo a um dos seus amigos,
Theodor Boveri: “descobri algo extraordinário, mas não sei se as 
minhas observações serão corretas”,e à sua mulher Bertha, 
afirmava que trabalhava numa coisa tão invulgar que diriam dele: 
“O Röentgen enlouqueceu!” (Eisenberg, 1995).
                        

            Não sabemos se existe alguma dramatização do que aconteceu, nada se sabe da heurística daquela pesquisa que a história da ciência arrumou em 8 de novembro de 1895. Sabemos que este fantástico achado, anunciado ao mundo em 28 de Dezembro de 1895, numa conferência pública e através do artigo Sobre uma nova espécie de raios (Über eine neue Art von Strahlen) teve uma descomunal repercussão. 

        Em poucas semanas, a notícia espalha-se pelo mundo, não só na comunidade científica como na imprensa mais generalista que noticiam os raios que deixam ver através da matéria. Apenas num mês, jornais como Diei Wiener Presse, de Viena (5 de janeiro de 1896); London Daily Chronicle, de Londres (6 de janeiro); Standard, de Londres (7 de janeiro); Le Matin, de Paris (13 de janeiro), e revistas científicas como The Electrician(10 de janeiro); LancetThe Brithish Medical Journal (11 de janeiro); Nature(16 de janeiro), além do próprio artigo original traduzido na Nature(23 de janeiro), fazem referência às photographias de Röntgen. Só em 1896 foram escritos 49 livros ou panfletos e 1000 artigos científicos sobre os raios X (Martins, 1997). Portugal não foge à regra e entre dezembro de 1895 e março de 1896 estão referenciadas cerca de 10 a 12 noticias em jornais generalistas e revistas científicas (Solano, 201  ).

            A repercussão imediata da descoberta dos raios de RÖNTGEN parece ser caso único na história da ciência. Em 1919, o eclipse solar que comprovou a teoria da relatividadede de Einstein é um rival de peso, a nível de repercussão na imprensa, mas que no meio científico não se consegue igualar.

            Em ciência não existem acasos. É hora de deixarmos de minimizar o mérito de Röntgen dando relevância ao aspeto acidental da observação do cientista. Essa é uma visão errada, como aliás vimos defendendo em publicações desde 2015. Quando se conhece um pouco do trajeto do cientista imediatamente nos apercebemos que estamos perante um espírito brilhante, perspicaz, rigoroso. Aos 50 anos, altura desta sua observação, Röntgen tem perto de 50 artigos publicados, essencialmente sobre as propriedades físicas dos cristais e sobre física aplicada. Por exemplo, em 1878 apresenta um alarme para telefone, em 1879 um barómetro. Um cientista experimentado, rigoroso nos detalhes e que escreve apenas três artigos sobre os raios X, tema que para ele estava esgotado. Na verdade, nos anos seguintes ninguém mais acrescentou nada ao tema.

            A descoberta de  Röntgen causou um grande impacto, não só nos meios científicos, mas entre a população em geral. Estava em cima da mesa algo que iria transformar a medicina. Iria tornar visível o invisível, tornar transparente o interior do corpo, ou como disse Castorp na Montanha Mágica, vermos aquilo que não devíamos ver, a nossa própria morte.

            Os primeiros aparelhos eram muito rudimentares e, mesmo assim, tornou-se comum a oferta de uma fotografia do torax, entre namorados, ou de radiografias da mão com um anel simbolizando o amor.

            Apenas depois de se perceber os efeitos nocivos da radiação X é que se restringiu o seu uso à medicina.
             A todos os TSDT de radiologia desejamos um bom 8 de novembro 2020.

"Ela é tão alta, tão esbelta; e seus ossos,
aqueles débeis fosfatos e aqueles carbonatos
tornam-se magníficos aos raios catódicos
pelas oscilações, ampères e ohms;
suas vértebras não se ocultam sob a pele,
mas tornam-se inteiramente visíveis.

Em torno de suas formosas costelas
em número de vinte e quatro
desenha-se um tênue halo de sua carne;
sua face sem nariz e sem olhos volta-se para mim
e eu sussurro: "querida eu te adoro";
seus dentes brancos e brilhantes sorriem.
Ah! doce, cruel, adorável catodografia"
                                                                       
Lawrence K. Russel, fevereiro 1896


(tetxo nosso publicado em 2018 e replicado em  2020)
bibliografia disponível se solicitada

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Raios X ou Raios-X?










CURIOSIDADE:

RAIOS X ou RAIOS-X


É preciso entender a diferença, já que surge de forma aleatória de uma ou outra forma.
"Raios-X", inevitavelmente com hifen, é a fotografia ou exame realizado por meio de radiação X

"Raios X", sem hifen, é o nome da radiação eletromagnética não luminosa que sabemos atravessa a matéria, e utilizada quando nos referimos aos “raios de Röntgen”, primeira designação para estes raios.

Os dicionários mais comuns não fazem esta distinção, utilizam as duas grafias sem lógica aparente, as duas corretas, mas divergentes na semântica.








Fotos da internet
Utiliizados nesta pesquisa:
Dicionário Eletrônico Houaiss e Grande Dicionário Sacconi da Língua Portuguesa
CS

domingo, 17 de maio de 2020

Um livro em tempos de pandemia. Nota de leitura

UJVARI, Stefan Cunha. A história da humanidade contada pelos vírus. 
São Paulo: Editora Contexto, 2012. 202 p.






As doenças têm história, explica tão bem Jacques Le Goff,  precisamente no seu livro As doenças têm história, de 1997, da Editora Terramar. Por outro lado, a malária, sífilis, tuberculose, influenza, Sida-HIV, sarampo.  zika e outros males que atacam a humanidade revelam muito mais da nossa história do que se pode imaginar.

O trajeto do homo sapiens sapiens ao longo do tempo, pelos 5 continentes, a utilização de roupas, a convivência com os animais, o encontro com outros humanos é desvendado com o estudo microscópio de vírus, bactérias, parasitas que ou se cruzaram ou se cruzam no caminho do Homem. 

Vírus, bactérias e parasitas são seres microscópicos tantas vezes protagonistas centrais do processo histórico, e não meros assistentes O ADN dos microrganismos é um meio através do qual podemos saber quando e como as epidemias iniciais apareceram, de que forma acabaram por condicionar a existência humana, dizimando populações, promovendo conflitos, estimulando êxodos, enfraquecendo povos. Permite estudar a história e a pré história humanas.
Este livro é escrito por um  médico infeciologista brasileiro, Stefan Cunha Ujvari, muito fácil de ler, e empurra a genética, definitivamente, para dentro das ciências da vida.
Composto por seis capítulos, basicamente, Ujvari, aborda a convivência dos humanos com os microrganismos, os impactos recíprocos e o perigo desta relação. Os seis capítulos são: “África: estação de origem”, “Pegadas microscópicas na migração humana”, “Chegada à América”, “Nasce a agricultura: o perigo mora ao lado”, “Domesticação dos animais. Vírus fazem a festa” e “O ataque continua”. 
A história da humanidade contada pelos vírus é um livro transversal e interessante para  todos, sejam profissionais de saúde, historiadores, antropólogos, sociólogos, economistas, geneticistas e agrónomos. Coloca no centro da discussão estes microrganismos fundamentais para percebermos como são centrais na história do Humano, pelas suas interdependências na construção dessa mesma história 
Um livro bem escrito e repleto de informações esclarecedoras. Vale a pena ler. 

quarta-feira, 25 de março de 2020

O AVC na Bíblia

Paul Broca, em 1861, conta à sociedade científica o caso de um doente que apresentou afasia motora e hemiparesia direita após ter sofrido uma lesão no giro frontal inferior esquerdo. É um marco na disciplina de neurologia, um sinal descrito há dois mil anos no Livro Sagrado.



















Se eu me esquecer de ti, Oh Jerusalém, que a minha mão direita se paralise; 
- Que minha língua se me apegue ao paladar, se eu não me
lembrar de ti, se não puser Jerusalém acima de todas as minhas alegrias...
(Salmos 137:5)


            Esta talvez seja a primeira descrição de um AV Encefálico, no salmo 137, traduzindo-se numa invocação a um castigo correspondente a acidente vascular encefálico da artéria cerebral média esquerda. A paralisia da mão e a imobilidade da língua é uma sintomatologia clássica de AVE com hemiparesia direita e afasia motora. 

REFERÊNCIAS:
1.Resende LA, Weber SA, Bertotti MF, Agapejev S. Stroke in Ancient Times: A Reinterpretation of Psalms 137:5,6. Arq Neurosiquiatr. 2008;66:581–3.
2.Tubbs RS, Loukas M, Shoja MM, Cohen-Galdol AA, Wllons III JC, Oakes WJ. Roots of Neuroanatomy, Neurology, and Neurosurgery as found in the Bible and Talmud. Neurosurgery. 2008;63:156–63.