terça-feira, 28 de julho de 2026

O Fio Cortado: Como alguns sindicatos venderam o Labirinto ao Minotauro

 


 Teseu e Ariadne, vencer o Minotauro no labirinto (autor desconhecido/representação)

A função histórica do sindicalismo nunca foi a celebração da rendição nem a burocratização da derrota. Quando os trabalhadores delegam a sua voz numa estrutura representativa, não o fazem para adquirir um corretor de concessões, mas para erguer uma barreira contra a assimetria do poder económico. O recentíssimo acordo aprovado por dois sindicatos não é um compromisso pragmático — é uma capitulação aberta que penaliza gravemente os TSDT/ESDT.

O sindicato deveria comportar-se como o fio de Ariadne. Na mitologia, o fio concedido por Ariadne a Teseu não servia apenas como ornamento; era a ferramenta rigorosa, contínua e inegociável que permitia orientar o herói na obscuridade do Labirinto de Creta, garantindo que não seria devorado pelo Minotauro nem se perderia nas suas entranhas. O sindicato tinha o dever de ser essa linha de aprumo e salvação: a bússola que conduz os trabalhadores através das complexidades e pressões do mercado laboral, protegendo-os das armadilhas do retrocesso e da erosão de direitos e autonomias.

Em vez de manter o fio esticado e firme, sindicatos optaram por cortá-lo em pleno percurso, abandonando os trabalhadores ao arbítrio das forças que deveria combater. A aprovação deste acordo, representativo de perdas reais — sejam salariais, de equidade ou de condições de trabalho —, revela uma profunda miopia política e uma falência ética. Sob o eufemismo técnico de PR e NR, o que se consumou foi a aceitação passiva dos ditames do Governo.

Não há erudição nem retórica que consiga disfarçar o facto central: uma representação que assina a degradação da vida daqueles que representa perdeu a sua razão de ser. Quando o fio de Ariadne se rompe por cobardia ou complacência de quem o segura, a estrutura deixa de ser um farol emancipatório e converte-se num mero entreposto de gestão da resignação.

As lutas laborais não se travam com capitulações de gabinete. O sindicalismo perde toda a razão de ser quando se transforma num carimbo do recuo social. Cabe agora aos trabalhadores desmascarar os falsos representantes, tomar a iniciativa e pedir contas a quem negociou e vendeu os seus direitos.

É , outra vez, hora de muita luta

Maria Rocha