Teseu e Ariadne, vencer o Minotauro no labirinto (autor desconhecido/representação)
A função histórica do sindicalismo nunca foi a celebração
da rendição nem a burocratização da derrota. Quando os trabalhadores delegam a
sua voz numa estrutura representativa, não o fazem para adquirir um corretor de
concessões, mas para erguer uma barreira contra a assimetria do poder
económico. O recentíssimo acordo aprovado por dois sindicatos não é um
compromisso pragmático — é uma capitulação aberta que penaliza gravemente os
TSDT/ESDT.
O sindicato deveria comportar-se como o fio de Ariadne.
Na mitologia, o fio concedido por Ariadne a Teseu não servia apenas como
ornamento; era a ferramenta rigorosa, contínua e inegociável que permitia
orientar o herói na obscuridade do Labirinto de Creta, garantindo que não seria
devorado pelo Minotauro nem se perderia nas suas entranhas. O sindicato tinha o
dever de ser essa linha de aprumo e salvação: a bússola que conduz os
trabalhadores através das complexidades e pressões do mercado laboral, protegendo-os
das armadilhas do retrocesso e da erosão de direitos e autonomias.
Em vez de manter o fio esticado e firme, sindicatos
optaram por cortá-lo em pleno percurso, abandonando os trabalhadores ao
arbítrio das forças que deveria combater. A aprovação deste acordo,
representativo de perdas reais — sejam salariais, de equidade ou de condições
de trabalho —, revela uma profunda miopia política e uma falência ética. Sob o
eufemismo técnico de PR e NR, o que se consumou foi a aceitação passiva dos
ditames do Governo.
Não há erudição nem retórica que consiga disfarçar o
facto central: uma representação que assina a degradação da vida daqueles que
representa perdeu a sua razão de ser. Quando o fio de Ariadne se rompe por
cobardia ou complacência de quem o segura, a estrutura deixa de ser um farol
emancipatório e converte-se num mero entreposto de gestão da resignação.
Maria Rocha