Reflexão
de uma revisora de 2 revistas científicas, e que nem sempre consegue interpretar os textos.
O expert da língua portuguesa e até os próprios
estados dos
diferentes países onde se fala
português estão a ser substituídos por algoritmos, plataformas
digitais e modelos de Inteligência Artificial. A IA a decidir por nós.
Uma mudança técnica, mas também, política e identitária, uma
vez que as escolhas de interface (os "defaults") moldam a perceção de
qual variante da língua é considerada "normal" ou
"rentável".
Grande parte das aplicações oferecem apenas o "Português
(Brasil)", omitindo variantes de Portugal, Angola ou Moçambique. Esta
exclusão não é um mero detalhe de design,
mas uma decisão económica: a máquina privilegia o que tem mais dados, mercado e
facilidade de processamento. Assim, o português digital torna-se uma
"língua de máquina" — polida e funcional, mas alérgica à diversidade
regional, sotaques e gírias.
Qual o peso dos big data e o
ciclo de retroalimentação
A IA aprende com o conjunto de textos. Se os dados forem predominantemente
urbanos e institucionais (seja do Brasil ou de Portugal), a máquina tratará as
formas periféricas, africanas ou orais como ruído.
Ainda, estudos indicam que humanos estão a adotar o vocabulário previsível
da IA, além disso, as discussões acaloradas nas redes sociais sobre o
"ouro" ou erros gramaticais servem apenas para gerar dados e lucro
para as plataformas, sem proteger a língua.
Resistindo e as considerações finais
A língua portuguesa é pluricêntrica e não tem um dono único, e teremos de combater
a colonização algorítmica:
·
Rejeitar correções automáticas que anulem a
identidade regional;
·
Exigir a inclusão de todas as variantes em
aplicações e IAs;
·
Apoiar a criação de recursos digitais fora do
eixo dominante.
Em suma, aceitar passivamente o português que a máquina devolve não é apenas
uma questão de rapidez, mas uma forma de ensinar ao sistema que a nossa própria
forma de falar tem menos valor.
