quarta-feira, 13 de maio de 2026

A fábrica IA normatiza a língua ou a ditadura do “default"

 




Reflexão de uma revisora de 2 revistas científicas, e que nem sempre consegue interpretar os textos.

O expert da língua portuguesa e até os próprios estados dos diferentes países onde se fala português estão a ser substituídos por algoritmos, plataformas digitais e modelos de Inteligência Artificial. A IA a decidir por nós.

Uma mudança técnica, mas também, política e identitária, uma vez que as escolhas de interface (os "defaults") moldam a perceção de qual variante da língua é considerada "normal" ou "rentável".

Grande parte das aplicações oferecem apenas o "Português (Brasil)", omitindo variantes de Portugal, Angola ou Moçambique. Esta exclusão não é um mero detalhe de design, mas uma decisão económica: a máquina privilegia o que tem mais dados, mercado e facilidade de processamento. Assim, o português digital torna-se uma "língua de máquina" — polida e funcional, mas alérgica à diversidade regional, sotaques e gírias.

Qual o peso dos big data e o ciclo de retroalimentação

A IA aprende com o conjunto de textos. Se os dados forem predominantemente urbanos e institucionais (seja do Brasil ou de Portugal), a máquina tratará as formas periféricas, africanas ou orais como ruído.

Ainda, estudos indicam que humanos estão a adotar o vocabulário previsível da IA, além disso, as discussões acaloradas nas redes sociais sobre o "ouro" ou erros gramaticais servem apenas para gerar dados e lucro para as plataformas, sem proteger a língua.

Resistindo e as considerações finais

A língua portuguesa é pluricêntrica e não tem um dono único, e teremos de combater a colonização algorítmica:

·         Rejeitar correções automáticas que anulem a identidade regional;

·         Exigir a inclusão de todas as variantes em aplicações e IAs;

·         Apoiar a criação de recursos digitais fora do eixo dominante.

Em suma, aceitar passivamente o português que a máquina devolve não é apenas uma questão de rapidez, mas uma forma de ensinar ao sistema que a nossa própria forma de falar tem menos valor.

 


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